Enquanto as investigações sobre o Grupo Master avançam, o mercado financeiro brasileiro se depara com um rombo que pode chegar à casa dos R$ 12 bilhões. A estimativa, confirmada pela direção da Polícia Federal, coloca o banqueiro Daniel Vorcaro no centro das atenções, mas levanta uma questão ainda mais urgente: quem vai arcar com esse prejuízo?
A resposta aponta para o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o mecanismo de segurança que, ironicamente, pode ter sido utilizado como ferramenta para alavancar a venda de produtos financeiros de alto risco.
O Papel do FGC: De Escudo a "Muleta"
Criado em 1995 para trazer estabilidade ao Sistema Financeiro Nacional, o FGC funciona como um seguro para investidores. Pelas regras atuais, ele garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em casos de quebra da instituição financeira, cobrindo depósitos em conta, poupança e títulos como CDB, LCI e LCA.
No entanto, o caso do Banco Master revela o que especialistas chamam de "Risco Moral". Lucía Ferrés Zakia, especialista em regulação de mercado e doutora pela PUC-SP, aponta que a garantia do FGC acabou servindo de lastro para a comercialização desenfreada de títulos "podres".
A Armadilha dos Altos Rendimentos
Como um banco de menor porte conseguia atrair tanto capital? A estratégia envolvia a promessa de rendimentos muito acima da média de mercado, chegando a ofertar 140% do CDI em certas aplicações.
Para o investidor comum ou institucional, a matemática do risco parecia anulada pelo FGC. O raciocínio do mercado tornou-se perigoso: não importava se o título era ruim ou se o banco tinha problemas de solvência; contanto que o investimento ficasse dentro do teto de R$ 250 mil, o FGC pagaria a conta em caso de calote. Isso gerou um incentivo perverso para a venda de produtos insustentáveis.
Operação Compliance Zero
O desmoronamento do esquema ganhou força com a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. A ação, que identificou a inserção de títulos falsos no sistema financeiro, resultou na prisão de Daniel Vorcaro em novembro.
Além das questões criminais, o caso tem desdobramentos políticos e sociais. Vorcaro também entrou na mira da CPI do INSS, convocado para explicar as operações agressivas do Master no mercado de crédito consignado voltado para aposentados e pensionistas.
O episódio serve como um alerta severo para a regulação bancária no Brasil: até que ponto a rede de segurança do FGC está protegendo o sistema ou incentivando a irresponsabilidade financeira?