A novela sobre o futuro da Braskem ganhou um capítulo decisivo e transformador. Com a entrada da gestora de recursos IG4 como acionista relevante, a petroquímica se prepara para uma reestruturação profunda que visa enfrentar o ciclo de baixa do setor global e sanear suas finanças.
O plano desenhado envolve uma integração estratégica inédita com a Petrobras, a transição energética para o uso intensivo de gás natural e uma renegociação agressiva de dívidas.
A movimentação começou na última segunda-feira (15), quando a IG4 anunciou a compra de R$ 20 bilhões em créditos da Novonor (antiga Odebrecht) que tinham ações da Braskem como garantia. Na prática, quando a transação for concluída, o fundo da gestora passará a deter 50,41% do capital votante da companhia.
O Pilar Financeiro: Sem Diluição de Ações
Uma das maiores preocupações do mercado foi dissipada: não há previsão de conversão de dívidas em ações. A possibilidade de diluição vinha penalizando os papéis da empresa na Bolsa (que caíram quase 5% nos últimos dias), mas o plano atual preserva a posição dos acionistas minoritários.
A estratégia financeira, agora liderada pela IG4, focará em dois pontos cruciais:
Renegociação de Dívida Externa: O alvo são os US$ 8 bilhões em títulos (bonds). A meta é alongar os vencimentos ou obter descontos para pagamentos antecipados.
Alavancagem: A dívida atual da Braskem corresponde a 14 vezes o seu Ebitda (geração de caixa), um patamar considerado insustentável e que será a prioridade da nova gestão.
O Pilar Operacional: A Aposta no Gás Natural
Para sobreviver em um mercado global inundado por produtos baratos da China e dos Estados Unidos, a Braskem precisa reduzir custos. A solução passa por substituir a nafta pelo gás natural como principal matéria-prima.
Aqui entra o papel fundamental da Petrobras. Magda Chambriard, presidente da estatal, já sinalizou a intenção de levar o gás do pré-sal diretamente para o polo petroquímico de São Paulo. Essa integração visa dar competitividade à Braskem frente aos rivais internacionais que já operam com gás barato.
Além disso, a empresa deve revisar seu portfólio, focando em ativos mais rentáveis e buscando novos sócios para unidades específicas, seguindo o modelo já adotado no México.
Governança: Quem Manda no Que?
O novo acordo de acionistas, que será submetido ao CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) nesta semana, define uma divisão clara de poder entre a Petrobras e a IG4. A gestão será compartilhada de forma igualitária:
Conselho de Administração: 10 cadeiras no total.
4 indicados pela Petrobras.
4 indicados pela IG4.
2 conselheiros independentes.
Diretoria Executiva: 8 vagas, divididas meio a meio.
Petrobras: Indica o Presidente do Conselho e fica com as diretorias operacionais (Industrial, Comercial e Engenharia).
IG4: Indica o CEO e assume as diretorias corporativas (Financeiro, Jurídico, Compliance e Planejamento).
Essa estrutura coloca a IG4, com perfil de investidor, no controle do caixa e da transformação corporativa, enquanto a Petrobras aporta sua expertise técnica e operacional.
O Passivo de Maceió
Por fim, o plano de reestruturação inclui dar celeridade à resolução do desastre ambiental em Maceió. O afundamento das minas de salgema é um fator de grande incerteza no balanço da empresa. A nova gestão buscará acelerar a remediação e fechar acordos definitivos com todos os atingidos para virar essa página.