A crise no fornecimento de energia na maior região metropolitana do país atingiu um ponto de inflexão. Após repetidos episódios de falta de luz, incluindo o recente apagão causado por um ciclone extratropical que afetou milhões de consumidores, o cerco político e regulatório sobre a Enel São Paulo se fechou.
Diante do endurecimento do discurso do governo federal, que voltou a mencionar abertamente a possibilidade de "caducidade" (o cancelamento forçado) do contrato, analistas do mercado financeiro avaliam que a situação da empresa italiana se tornou insustentável. A aposta majoritária no setor é que a pressão resultará na venda da concessão antes que o contrato termine ou seja rompido.
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O Caminho da "Caducidade" vs. A Saída pela Venda
Embora o governo fale em caducidade, esse é um caminho considerado extremo e, sobretudo, demorado. Não é uma decisão que se toma do dia para a noite. Exige um processo administrativo complexo na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com análises técnicas profundas sobre falhas e transgressões, além de garantir amplo direito de defesa à empresa.
A Aneel já está com um processo aberto e confirmou que incluirá a análise do apagão da semana passada na investigação. No entanto, diretores da agência indicam que ainda faltam informações técnicas para um parecer definitivo.
É nesse cenário de incerteza e desgaste reputacional que a tese da venda ganha força entre instituições financeiras como JPMorgan e Citi. Para os analistas, a Enel perdeu as condições políticas e de imagem para continuar operando em São Paulo. A venda seria uma saída "honrosa" e mais ágil, similar ao que já ocorreu no passado com distribuidoras no Amazonas e Amapá, que trocaram de controle antes de uma intervenção federal.
O Precedente de Goiás e Possíveis Compradores
A própria Enel já viveu um roteiro semelhante. Em Goiás, após enfrentar críticas severas de autoridades e da população pela má qualidade do serviço, a empresa decidiu vender sua operação para o grupo Equatorial.
Embora o contrato em Goiás fosse mais recente e tivesse cláusulas mais claras para a caducidade por descumprimento de metas, a pressão política atual em São Paulo cria um ambiente similar para uma saída negociada.
Se a Enel SP for colocada à venda, quem assume? Relatórios de mercado, como o do banco UBS BB, já apontam potenciais interessados. Gigantes do setor com histórico de aquisições, como Neoenergia, Energisa e CPFL, são vistas como candidatas naturais a assumir o desafio de gerir a rede elétrica paulista.
O Outro Lado e o Risco Climático
Oficialmente, a Enel não comenta rumores de venda. A empresa, cujo contrato atual vence em 2028, ainda tenta um processo de renovação antecipada — que agora está suspenso pela Aneel.
Em nota, a companhia reforçou sua confiança no sistema jurídico brasileiro e prometeu investimentos maciços em redes mais resilientes, digitalizadas e na implantação de redes subterrâneas em larga escala.
O caso Enel SP, no entanto, vai além de uma única empresa. Ele sinaliza um aumento do risco regulatório para todo o setor elétrico no Brasil. Com a frequência de eventos climáticos extremos, a avaliação das concessionárias está mudando: o foco deixa de ser apenas o cumprimento frio de indicadores técnicos e passa a pesar mais a qualidade da resposta e a percepção pública durante crises e emergências.